Amplitude das
manifestações de junho trocada por ideologização e violência
Jarbas de Holanda
1) As manifestações
de rua, de dois meses atrás, detonadas pelas demandas de redução das tarifas de
transporte coletivo, ganharam grande amplitude por articularem ingredientes
básicos da indignação social. Que podem ser assim resumidos: o paradoxo entre a
enorme carga tributária e as limitações e a baixa qualidade dos serviços
públicos; a ineficiência e a prática de corrupção por governantes e políticos
dos três níveis do Estado brasileiro (o que foi fortemente influenciado pelo
processo do mensalão); e efeitos da pressão inflacionária combinados com perspectivas
e indicadores negativos do comportamento da economia.
2) Após o
esvaziamento e a suspensão daquelas manifestações (devidos ao preparo da vinda
do papa Francisco para a Jornada Mundial da Juventude e à chegada das férias
escolares), o espaço e a repercussão delas passaram a ser disputados na capital
paulista, primeiro, pelas centrais sindicais, por meio de palavras de ordem que
misturavam uma agenda corporativista ao propósito do PT, através da CUT, de defesa
do governo federal; e, na sequência, após o fracasso desses objetivos, por
grupos partidários estreitos e radicais e por alguns sindicatos ligados a eles,
com a realização de atos ainda mais estreitos. Os quais, logo depois de
começados, passam a ser conduzidos por mascarados do Black Bloc – e por sua
retórica anarquista, “anticapitalista” e as correspondentes diretivas para
invasão e depredações de equipamentos públicos e de propriedade privada, com
destaque para as agências bancárias, além de incluir agressões a veículos de
mídia e a vários de seus profissionais. Tudo isso envolvendo a interdição de
rodovias e de corredores de trânsito urbano, contando com a parceria de
assaltantes e beneficiando-se da omissão ou da leniência das forças de segurança,
quase paralisadas pelo receio de serem acusadas de repressão a protestos
populares.
3) Finalmente e
felizmente, a sociedade passou a emitir sinais de clara distinção entre esses
atos criminosos e as manifestações de junho, bem como a reclamar das autoridades
policiais e do Ministério Público respostas efetivas e duras a tais atos e aos
responsáveis por eles. Sinais que estão sendo reforçados por avaliações e
cobranças semelhantes feitas por respeitados jornalistas e em editoriais dos
grandes veículos da imprensa. Sem que isso iniba – pois ao contrário poderá
contribuir para – possível e desejável retomada de manifestações amplas e
legítimas, como as de junho.
4) Seguem-se trechos de um desses editoriais,
da Folha de S. Paulo de domingo último, com o título “Direito de
todos” e o “olho” “Democracia deve garantir livre manifestação, mas precisa
levar autores de atos de violência a responder na justiça”: “As manifestações
de junho passado, quando centenas de milhares de brasileiros foram às ruas
exerceram efeitos notáveis. Sacudiram o sistema político do torpor em que se
encontrava e revelaram saudável inconformismo, expresso no maciço apoio aos
protestos. Mas o momento passou: as manifestações arrefeceram. Não existe
fórmula que resolva, num passe de mágica, os graves problemas apontados”.
“Nesta fase de refluxo, porém, subsiste uma dispersão de grupúsculos empenhados
em sustentar a antiga chama. Incapazes de mobilizar multidões, recorrem à
violência no afã de multiplicar a repercussão de seus esquálidos protestos”. “É
preciso repetir o óbvio. Cabe às autoridades garantir o direito de manifestação
pacífica. Mas compete às mesmas autoridades coibir todo ato de violência contra
qualquer pessoa ou contra o patrimônio público e privado.” “Pouco importa que
os vândalos sejam ideólogos do ressentimento, indivíduos de temperamento
exaltado ou meliantes e provocadores infiltrados na confusão. A lei é a mesma
para todos. A democracia representativa é o único regime que protege os que
pregam sua destruição, concede-lhes uma generosidade que jamais retribuiriam.
Impedi-los de impor sua pregação pela força não é um direito do regime
democrático mas sua obrigação mais irrecusável”.
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