quinta-feira, 10 de abril de 2014

ESTUDO SOBRE A PAIXÃO

ESTUDO SOBRE A PAIXÃO
(Início da tese “Paixão, razão e natureza”).
Mozar Costa de Oliveira — bacharel em filosofia (Universidad Comillas de Madrid), mestre e doutor em direito (USP), desembargador aposentado (Tribunal de Justiça de São Paulo), professor aposentado de direito (Universidade Católica de Santos, São Paulo).
Introdução.
“Paixão” vem-nos do latim “passio”, acusativo “passionem”, do verbo pati. No grego, o infinitivo (πάσχειν) diz estar alguém atingido no Eu, recebendo efeitos de ação exterior, de modo agradável ou desagradável. No alemão acolheu-se o termo “Leidenschaft”, de Leid, com a ideia de dor, sensação desagradável (Kummer, Schmerz, Unglück, Übel, Schaden).
Um dos sentidos mais antigos é de conteúdo lógico – categoria aristotélica: aquilo a que se entende como sucedendo a alguém porque recebe efeito de outro. Foi nesse matiz semântico que se passou à gramática (ex.: voz passiva). De qualquer maneira, opõe-se à ideia de ação. Na paixão sofre-se efeito, recebe-se eficácia de agente. Já Platão lhe acentuara o enorme efeito emocional (ginetes de fogo). A mitologia grega é como se não tratasse de outra coisa que não fosse o sentimento. A literatura grega põe-se nos cumes da intuição e da análise, vivenciando de modo inigualado anseios, lutas, dores e desgraças do Homem. Um dos melhores trabalhos já publicados a esse respeito é o de Werner Jaeger, “Paidea – The ideals of Greek Culture” (tr. da 2ª ed. alemã), B. Blackwell, Oxford, 1947, 2 tomos.
O Cristianismo é, para os adeptos de Jesus Cristo histórico, a fonte inesgotável de onde brotam os mais profundos sentimentos do Homem. Nos Evangelhos a paixão de Cristo é o drama máximo — o sofrimento e a morte do Homem-Deus.
Os Santos Padres gregos e romanos penetraram a fundo nesse tema repassando inclusive as epístolas do apaixonado Paulo de Tarso (São Paulo). Santo Agostinho foi ele próprio dos temperamentos mais dotados de sentimento.
Santo Tomás de Aquino, apesar de cognominado “angélico”, é dos mais destacados tratadistas da temática das paixões. Sua obra vem enriquecida com praticamente tudo o que se escreveu antes sobre o assunto.
Paixão é basicamente interação vista da parte do sujeito que a experimenta. Sente-lhe ele os efeitos que, aliás, em grande parte o conduzem. Os homens somos mais objeto do sentimento do que produtores dele quando tocados pela paixão. Daí as modificações biológicas e físicas por que passamos, porque na paixão o ser humano é movido. Emociona-se. Emoções são manifestações somáticas do sentimento provocado pelo movimento passional no “sujeito” (este, em grande parte “objeto”). Resultado de interação, a paixão é social, efeito de inter-relação. Apresenta-se com forte componente biológico. Emociona. O fenômeno biológico tem dimensão física porque se passa no corpo. Há, portanto, entrelaçamento natural, nessa descrição do senso-comum, entre paixão e fenômenos físicos e biológicos.
Entanto, temos ao menos a sensação de não sermos apenas móveis conduzidos por sentimentos e emoções. Com a Paixão interage a Razão. Somos instinto, sim. Mas também inteligência. É a nossa Natureza. Por isto é que a tese se denominou Razão, paixão e natureza.  

CONCEPÇÃO CLÁSSICA. DISCUSSÃO
1. Lógica e teologia.
A visão clássica da via do homem, como a temos na cultura ocidental, participa de uma concepção mais estática que dinâmica da realidade do homem histórico. Nesse ponto a categorização aristotélica permeou os trabalhos de Tomás de Aquino. Caracterizou-os claramente como intelectualistas — o primado do homem está na razão, no “lumen intellectuale” pelo qual o ser humano se sobressai como Rei da Criação, precisamente por a sua inteligência ser participação da Luz Incriada, que é Deus. A concepção teocêntrica em Tomás de Aquino é traço constante da sua obra. E por meio dela mesmo os trabalhos de Aristóteles ficaram no Ocidente com timbre semelhante: de lógica formal e teocentrismo. De qualquer modo percebe-se em S. Tomás (e, através dele, na visão de toda a filosofia clássica radicada em Aristóteles) a concepção do espírito humano como alto fenômeno na ordem dos seres, mas cujo vigor intelectivo é débil, dependente do concurso da sensibilidade para o aperfeiçoamento natural do seu operar [1]. Nessa frisante alusão às dimensões sensíveis da realidade encontra-se já nos clássicos o articular-se da razão com o mundo das paixões, em notável representante da visão clássica do mundo. Nas asas da teologia natural ergue-se o homem para a visão clássica da natureza.
2. Sabedoria, ciência e livre arbítrio.
Na esteira de Aristóteles acentua Santo Tomás de Aquino que razão, intelecto e inteligência são sinônimos. Esta potência intelectiva humana – que distingue o Homem do restante da criação – tem funções assim superiores como também inferiores. A sabedoria é fruto das funções superiores do intelecto e a ciência resulta da operação das funções inferiores do espírito intelectivo, ou seja, nas suas aplicações à vida. Em qualquer caso, porém, há na inteligência princípios que nos são naturalmente impressos (Summa theologica, I, 79, 12, c). O livre arbítrio é força, é princípio, é fonte de seletividade (Summa, I, 83, 4). Assim, para Santo Tomás o pináculo do espírito humano está na contemplação especulativa. Dessa potencialidade – como das outras, próprias do homem – a alma é o sustentáculo. A alma não se confunde com as suas potencialidades; é o suporte delas. São “partes” diferentes dela a potência nutritiva, a sensitiva e, com a intelectiva, a vontade. Depois da morte a potência sensitiva bem como a nutritiva desaparece. Ficam, porém, o entendimento e a vontade (Summa, I, 76, 4, c e 77, 8, c). Por a razão poder colher a essência das coisas e por ser capaz, só ela, de contemplar a verdade, seu superior valor é a fonte mesma do saber. Através de um domínio político (não de uma manipulação despótica – como assinala Aristóteles), a razão é capaz de dirigir as partes inferiores da alma inclusive nos efeitos da sua união com o corpo. Com isso influi a razão na própria natureza, ou seja, no que está abaixo do intelectivo-volitivo e no sensitivo (Summa, I, 79, 10 e 11).
A intuição dos primeiros princípios está na razão superior, ao passo que o raciocínio ocorre na função científica do espírito.
3. Platonismo e apriorismo.
Denota-se no Angélico a proposição (não demonstrada) de que a consciência dos primeiros princípios seja algo inato, e não adquirido com base na experiencialidade. Há igualmente nisso a admissão implícita de termos em nós intuições inatas de algum mundo, dos suprassensíveis. Arma-se na visão aristotélico-tomista um cabedal de esquadrias lógicas em que as categorias tolhem uma maior liberdade de aprofundamento cognitivo nos fenômenos da atividade intelectual com os dados do senso comum[2]. Não é ainda o momento de nos aproximarmos mais detidamente da questão da razão; por ora falamos a respeito da razão, só sobre a paixão. Mas essa tendência dos clássicos entreabre-se a perspectiva de que o mundo (mais) ilógico dos movimentos passionais corre o risco de receber, por parte do intelectualismo apriorista lógico-abstrato de todos os tempos, a cunhagem de mero desvio do pensamento. Isso pela criação de entidades irreais, a que corresponderão conceitos artificiais, perigosos para a correta compreensão da natureza das coisas.
4. O “locus” das paixões.
Para Santo Tomás também a alma dispõe da “vis appetitiva”, portanto da força dos sentidos, e com linguagem ligeiramente inferior às operações mais altas da contemplação da verdade (sabedoria). Com ela inclinamo-nos ao bem. Está acima do puramente sensitivo, e mais acima ainda do natural. Para o Angélico “natural” – noção que se repete muitas vezes – coincide com o físico não sensível. Pressupõe-se um adensamento de crescente nobreza do “compositum” (espírito e matéria, alma e corpo) desde a matéria até ao imaterial, estando nesta última zona do Homem o seu mais alto destino e origem – a participação na Natureza Divina. Percebe-se a introdução, no raciocínio, de elemento religioso. A ligação com a Causa Incausada, com o Ser Primeiro, com o Último Fim, é movimento do espírito pelo qual nos arrastamos e nos lançamos para fora do mundo da estrita racionalidade entendida como processo de afirmações e enunciados, em que não se dá passo cognitivo sem provas exaustivamente criticadas pelo discurso da plena segurança. Temos aí, em verdade, uma das grandes paixões do pensamento clássico cristianizado no Ocidente, mormente através do intenso trabalho da patrística [3]. É a paixão religiosa, de que é vizinha a metafísica.
Para Santo Tomás, na esteira de Aristóteles, abaixo da potencialidade apetitiva, constituindo movimentos no prol de alguém em direção a algo, situa-se o apetite sensitivo com as duas vertentes: a vertente concupiscível e a irascível. Na inteligência há quietude. Essa quies tem possibilidade de governar a própria sensibilidade, enxergando e mostrando – sem forcejar –. Falta-lhe, contudo, qualquer domínio sobre o vegetativo (Summa, I, II, 17, 5-8). À míngua de tal domínio direto e perfeito, e de total ausência dele em relação ao “natural” da atividade vegetativa, temos então a região do “compositum” em que assistimos a intensa movimentação irracional com atrações e repulsas da função apetitiva da alma. Tal ocorre de modo mais denso ainda no campo da sensibilidade — onde moram as nossas paixões.
A mais radical das paixões é o amor, causa de todas as outras paixões (Summa, I, II, 25, 3, c). Os principais troncos das paixões são: alegria, tristeza, esperança e temor. Certo, pois, Aristóteles ao caracterizar o amor como sendo a busca do bem de outrem (“amare est velle alicui bonum” – Summa, I, II, 26, 4, ad 1). Os dois principais efeitos do amor são a união e a interioridade em relação ao alter, ao ser amado.
Interessante notar que Santo Tomás de Aquino, o Angélico, homem de Deus, não situa o mundo passional apenas no sensitivo e no biomaquinal. Há passo mesmo no qual ele assinala que, quanto ao objeto, o amor – portanto a paixão, por suas próprias bases estruturais – é superior à própria operação específica da mais nobre função do espírito (o entendimento contemplativo). Essa superioridade da paixão-amor ocorre quando o homem busca a Deus: “melior est amor Dei quam cognitio” (Summa, I, 82, 3, sed contra).
Nesse ponto o discurso clássico encontra continuidade nas elucubrações modernas sobre a pulsão mais básica, no sentido de união e fusão. Para um teólogo moderno o amor é a solidariedade centrada em Deus[4]. Segundo um sociólogo contemporâneo os projetos sociais mais significativos são os da Religião (além dos éticos), vivenciados no correr da história. Isto, porém, se não é o mesmo que se confundirem aí o escapismo e a resignação recalcadora, típicas da maioria das linhas do hinduísmo e do budismo. Quando a dedicação religiosa realiza o fortalecimento da personalidade, o homem ganha em comunhão no reino da liberdade.
5. O substrato das paixões.
É sabido como recaem sobre a psicologia aristotélico-tomista pesadas críticas sobre o seu substancialismo: onde há o desconhecido, por mera comodidade lógico-estética mete-se um algo espesso, fundamento sobre que descansem as realidades mais conhecidas por serem mais analisáveis. Assim, a alma é distinta das suas potencialidades e dos seus movimentos. As paixões não são a alma; estão nela (Summa, I, II, 22, 1). A alma – e com ela o Homem – sofre, padece (“pati”, “passio”) com o movimento de ser levada ao objeto, ou de ser afastada dele. No mesmo sentido Aristóteles, De Generatione, 3,9; como o Estagirita no VI Metaphys, 1.5, 4, 1, assim S. Tomás entende estar a paixão mais na virtualidade apetitiva do espírito que na sua atividade cognitiva (I, II, 22, 2).
A observação é interessante. Indica que, ainda nos primórdios do pensamento lógico do Ocidente já se percebe embora obscuramente o que hoje é tão alardeado: nem sequer na atividade científica é possível a neutralidade total do observador. Na “quies” tomista é provável não ser esse o pensamento quando se trate da mais pura contemplação da inteligência (intelectualismo). Quanto ao mais há sempre movimento: no intelecto passivo e no intelecto prático, este uma continuação do intelecto passivo.
Agora, além de a paixão ser mais estuante na região apetitiva do espírito, a atuação dela é mais notável no chamado apetite sensitivo (22, 3). Diz o Santo Tomás de Aquino que essa atuação preponderante se explica pelo fato de ser no mundo da sensibilidade que ocorre o fenômeno das transmutações corporais (ibidem, sed contra). Sustenta S. Tomás o seguinte – com erro acusado pela moderna psicologia – na atividade do desejo intelectual (vontade) não há qualquer alteração corporal (sed contra). Denota-se aí a falha de estrutura na construção do sistema filosófico antigo e medieval, que abrange a física e a psicologia, como é sabido. O ponto a destacar neste momento é a divisão rígida das realidades como segmentos estanques da Natureza. Em parte essa preconceituação resulta dos excessos categoriais que a lógica aristotélica – fundada apenas no senso comum – espargiu pelo mundo, causando grande mal do pensamento do Ocidente. O número de cisões foi crescente provavelmente com detrimento de uma compreensão mais aperfeiçoada da identidade humana e de seu curso na história. Compreender mal a Natureza já é andar mal por Ela, pensamos nós.
6. Como as onze paixões se relacionam entre si.
Na concepção tomista há diferença específica dentro da dialética “concupiscibile-irascibile”. Vê o aquinatense os dois movimentos variados como diferenças de espécie. As paixões concupiscíveis movimentam-se pura e simplesmente em direção a algum bem; as irascíveis configuram-se com a mesma tendência vetorial, mas encontram um campo de forças em sentido contrário – o objetivo torna-se um objetivo árduo (I, II, 23, 1, resp.). Grave contradição da natureza está muita vez em que o bem de atração, de fácil ou mesmo impetuoso desejo, prejudica o sujeito apaixonado em outras áreas da sua identidade (“malum simpliciter acceptum, [...] dolorosum” I, II, 23, 1, resp). Já o “bonum” fugidio, de difícil acesso, de que temos a semente sempre pronta da saudade – este é o Bem a que aspiramos com o grupo irascível das paixões (ibid.).
Ocorre ainda que nem toda paixão humana tem um polo oposto com que entre em dialética. Já o acentuara Aristóteles em IV Ethicorum (5, 1). A ira é o único exemplo (ib., 3, resp.) Verte-se a ira em movimento contra o mal nocivo e lesivo para o sujeito, no estado presente. A contrariedade à ira estaria no afastamento; tal porém não é possível logicamente porque por definição esse mal já está a aderir à esfera pessoal do apaixonado enquanto tal. A situação passional que poderia aparecer oposta à ira seria a alegria (“gaudium”) na quietude da pessoa em contato com o bem adquirido. Ora, essa paixão pertence à espécie concupiscível; como a ira é da classe das irascíveis, não podem ser paixões de movimento contrário... O que aparentemente se opõe à ira não é paixão, mas a privação dela, é o próprio fim da ira. A mansidão não é o oposto dela, mas somente negação (Arist., “Rhetorica”), 1.2, 3,1). O bem não conseguido é objeto ou da esperança ou de desespero. Se é o mal que se tem de enfrentar, então ou somos atacados de medo ou tomados de coragem. Portanto, conclui Santo Tomás de Aquino, o filósofo-teólogo, no movimento concupiscível articulam-se em verdade três conjugações de paixão: amor-ódio, desejo-fuga, alegria-tristeza. No esforço passional de movimentação irascível encontramos dois grupos polares (esperança-desespero, medo-coragem) e, isolada, a paixão da ira. São as onze paixões da alma humana (Summa, I, II, 23, 4, r.). Todo outro movimento passional está aí contido (ibidem, final).
7. Apreciação ética das paixões.
Para definir-se eticamente certa paixão temos de examinar que tipo de “amor”, em sentido amplo, move o espírito: se é um amor errado, a paixão é condenável; se correto o amor, louvável a paixão; é lição de Santo Agostinho (S, I, II, 1, sed contra). Agora, o “certo” e o “errado” são vias ou caminhos que somente a razão define. É ela a norma mesma da moralidade e da racionalidade. A vontade guiada pela norma racional será fonte de paixões aceitáveis, condizentes com a natureza humana. É pela razão que o homem participa da Natureza Divina de que proveio e para a qual se dirige. É ela a estrela-guia da moralidade que estrutura a grandeza da raça humana. Ora bem, pela conformidade existencial da criatura com o Criador pode ela, e somente nessa conformidade, encontrar a consecução do seu fim último, ou seja, a felicidade (ευδαιμονία). Na razão situa-se o tribunal seguro onde se repetem os julgamentos éticos com que nos podemos nortear. Por isso mesmo nem toda paixão é condenável, nem toda ela há de aprovar-se. Erraram os estoicos e tiveram razão os peripatéticos no dizerem que são desejáveis as paixões moderadas (ib., 2, r).
Temos de dizer que parece persistir o problema de dizer o que seja essa moderação. O que é, afinal, esse modus? Qual o critério para medi-lo? Se não o podemos medir, então quais os parâmetros para se descobrir por onde ele passa com um mínimo de influência dos subjetivismos e das idiossincrasias – mormente sabendo que a razão mesma (o λόγος aristotélico e a “ratio” tomista) está sujeita a ventos passionais? As respostas da Escolástica e da filosofia grega a tais perguntas são de traçado fácil no plano discursivo, quer dizer, de ideias mais ou menos gerais no plano estético, mas com forte ressaibo de apriorismo. Entendemos que a questão tem hoje exigências de mais fundo, porquanto o que convém à Natureza, o que esteja a não contrariá-la — eis aí matéria difícil de saber. As respostas demandam uma contínua atualização crítica do nosso conhecimento sobre a natureza-das-coisas (natura rerum. (O escritoΠερί της φύσης των πραγμάτων — sobre a natureza das coisas — foi a obra de Lucrécio a esse respeito). E como todo conhecimento passa por nós, então nos cumpre diagnosticar o quanto de noção exata sobre a nossa identidade-no-mundo é de mister para nos situarmos corretamente diante desde problema tão repleto de extensas derivações cognitivas e ideológicas. Estamos aí diante da dificuldade mesma do problema gnosiológico. Volta ele a todo o momento; tudo que é de nós conhecido recebe sempre algo da nossa própria dimensão, isto sim nossa formação e deformação mental. Viram-no com percuciência os próprios escolásticos – “quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur”. Essa incessante busca de superação de nós próprios, do nosso sub, define até certo ponto a luta pelo conhecimento cada vez mais depurado dos subprodutos deixados pelo funcionamento mesmo das atividades cognitiva e passional. Questão tanto mais delicada quanto sabemos que as escórias desse sub são empecilhos e dificultações que a nossa natureza lança sobre a realidade maior em que ela está, na coexistência com os outros seres, na situação de “co-ser”. A rede dessa complexa estrutura da realidade do homem na natureza é ainda mais rica de elementos de estrutura de ação-paixão, pelo fato de existirmos necessariamente em sociedade, em grupos, em círculos sociais nos quais a correlação cria outras relações enfeixadas em paixões. O conviver forma-nos, deforma-nos e conforma-nos. Ser ator e espectador da adaptação geral faz de nós, simultaneamente, pacientes do movimento geral de movimentos do Real. O conhecimento e as paixões viabilizam e forçam destinos e caminhos, modos-de-ser e modos-de-pensar, autoconstituições e destruições. Tudo isso tem os seus modos próprios de ser (“modi”). Alguns deles não dependem de opções, ou delas têm campo limitado. Vivemos no processo geral de adaptação da Natureza como partes nela integradas e que dela se não podem separar. Entanto, há muitos fenômenos que aí se repetem com surpreendente regularidade com elementos sólidos de convicção. Não conseguimos afastar de nós a captação, uma e outra vez comprovada, de modos-de-ser repetidos. Dessas regularidades descobrimos fórmulas, com possíveis conteúdos estatísticos; sobre eles formamos proposições. Esses conteúdos servem-nos de instrumental de previsibilidade e cálculo, fundados em memória do passado.
Haverá então leis naturais dessa adaptação? Se descobrirmos alguma delas, que a experiência repetidamente confirma e em parte corrige, decerto podemos então dizer ser viável certo quadro de organização da Natureza, pelo qual avançamos no conhecimento crescentemente seguro e retificado dela. Talvez possamos descobrir espectro desses modos-de-ser. Talvez o Direito seja um deles, específico. Se for possível resposta positiva sobre a consecução desse conhecimento, talvez possamos ter maior precisão a respeito do conteúdo e da natureza do que sejam paixões boas (“a ratione moderatae”). Saberemos também algo sobre os limites dessa organização das paixões. Inclusive pelo Direito.
8. A hierarquia tomista das paixões.
Trabalhando com ideias de Aristóteles e com um dos mais apaixonados Padres da Igreja (Santo Agostinho), procura Santo Tomás estabelecer, ou quiçá descobrir, alguma ordem sequencial nas paixões (as onze, tanto as concupiscíveis quanto as irascíveis). Distingue entre o funcionamento delas e a intencionalidade racional a respeito delas (“executio” e “intentio”). Diz o aquinatense que no movimento amoroso está a fundamental aptidão em relação a certo objetivo. Cuida-se de uma inclinação proporcional, portanto de uma potencialidade (I, II, 25, 2, ad 2). É, sim, a união afetiva mas ainda potencial, uma como que tensão ainda recolhida. Um movimento em direção ao bonum, no qual o ser amoroso vai comprazer-se, desenvolver-se dinamicamente a seguir sob a forma de desejo (=concupiscência), (ib., resp.); isto se torna assim porque o Bem é um “fim” — terá chegado a fase última da busca do Bem. Chegando então ao estado de aderência ou posse do Bem, a paixão que se exercita é finalmente o gozo ou deleite. A posse do bem amado, com a concomitante paixão da complacência nele, é efeito do amor (ib., ad 1). Já a ordem inversa dessas três paixões da potencialidade concupiscível do Homem é a ordem da intenção. Precisamente o inverso da ordem de funcionamento ou de execução (ibidem).
Quanto às paixões irascíveis, o primado cabe à esperança (I, II, q. 25, 3). Assim é por ela ser a mais próxima paixão ao amor (sed contra). A mais distante dela, no movimento passional irascível, é a isolada ira — a paixão sem contrários por provir da ausência do bem (o mal que a ira causa é a privação do bem). De modo que, em ordem de sua geração em nós, dispõem-se as paixões na seguinte seriação: 1) amor-ódio; 2) desejo-fuga; 3) esperança-desespero; 4) medo-coragem; 5) ira; 6) alegria-tristeza (respondeo, parte final).
Mas é de notar-se haver paixões mais importantes que outras. E as principais são estas quatro: alegria, tristeza, esperança e medo (ibid., art. 4). Tudo isso em função da presença, ou maior proximidade, do objeto amado. Ou ao contrário, da distância em relação a ele (ibid.).
9. A articulação fundamental de todas as paixões: amor-ódio.
O amor é a base de geração do desejo, o fulcro da concupiscência na natureza. Mas, com isso o aquinatense quer significar o inanimado: o movimento de um ser em direção a outro não ocorre por apreensão sua, mas sim do próprio Ser Instituidor da Natureza. Já onde haja vida, sem critérios de julgamento (= vida animal bruto), dá-se a uma apreensão por pura necessidade. No homem funciona o livre arbítrio, com a vontade ou o apetitivo inteligente, racional. Em qualquer desses casos, o amor – em sentido largo – é o princípio motor do movimento passional. Essa tendência geral de um ser, rumo ao objetivo que lhe convém, é gerada pelo bem proporcional ao “amante”. Tal geração afetiva é o amor. Simplesmente porque esse bem convém, ou apetece, ou é desejável; sem qualquer alusão íntima à dificuldade em se consegui-lo. Quanto ao bem “árduo”: ele gera o grupo das paixões irascíveis. O amor é paixão precisamente porque ele movimenta o ser amante, em direção ao bem amado. Quando o amor se torna hábito entre pessoas racionais, temos a amizade. Quando o amor é precedido de escolha racional, o caso é de uma situação passional assemelhada: é a dileção. E quando o alvo do amor é de altíssima estimação, então o caso é de caridade (I, II, 25, 3, r.). Quando se ama alguém por qualidade dele, não é de amor-de-amizade que se trata mas de amor-de-concupiscência (art. 4).
Só o bem – ou a aparência de algum bem – pode ser objeto de amor. Assim, somente a apreensão ou captação de algo com pelo menos aparência de bondade, de conveniência, de proporção adaptativa, pode ser objeto de amor. Sem tal, o amor não surge. Logo, a apreensão dessa conveniência – o conhecimento – é causadora do amor. A visão da coisa bela fá-la ser amada por quem a vê (amor sensível); a bondade conhecida gera o amor espiritual. Também a semelhança cria o amor. O que nos é parecido ou assemelhado retém algo, e desejamos-lhe o bem, inclusive porque é uma maneira de defender o nosso próprio interesse (I, II, 27, 3). Assim, o amor está em todos os demais movimentos passionais: ou é movimento para algo, ou é quietude (gozo de algo). Mais semelhança na espécie faz os membros dela serem mais amantes uns dos outros.
Em verdade o amor tende à união. Ele á a força que vincula os seres (q. 28, 1). O alter de que sou amigo (a quem me habituei a amar) é algo assim como a metade da minha própria identidade. No inanimado (natureza “morta”) unem-se os seres impelidos pelo amor só segundo as pulsões impressas nas coisas pelo Autor delas. A união é efeito do amor porque a apreensão do bem o faz uma pertença de nós próprios, ou nos fundimos nele. No amor em sua etapa final (o gozo do bem amado) há interpenetração dos dois seres; no recíproco conhecer-se com o intrínseco ingresso no interior de cada qual. Na vida afetiva propriamente dita isto ocorre mediante radical complacência no interior da mútua intimidade. O amor é visceral, é intimidade, é contínua troca de alegrias ou tristezas num só querer (assim já o acentuara Aristóteles, in Ethic, IX, 3, 4 e Rhet. II, 4, 3).
Daí a frequência com que o amante se põe a si próprio fora de si mesmo – para estar no outro. É o êxtase (art. 3). Quando o bem amado não é apenas aparente, mas sim de efetiva coadaptação (segundo a razão, diz Santo Tomás de Aquino), então há aprimoramento de ambos os amadores. Os dois aperfeiçoam-se; se não, destroem-se (art. 5). Como todo móvel da paixão-amor é pelo menos a aparência de bem, o amor (ainda que seja a sombra errada dele) é o que impulsiona todo o agir dos homens (art. 6). O ódio é a paixão “anti-amor”. Detesta-se o mal, que é negação de bem (como o nada é negação de ser e a morte a negação da vida). No mundo inanimado os seres repelem-se em recíproca dissonância; toda aproximação os prejudica, ou é nociva pelo menos a um deles. A ausência de equilíbrio, a negação de harmonia entre seres, é fonte de rejeição. Nos seres inteligentes essa desarmonia corrompe o relacionamento social. O ódio destrói. O ódio explode porque os seres – os seres humanos, por exemplo – precisam de bem, de bens, querem o que lhes é necessário ou que apetecem. Se, entretanto, lhe são negados, ou deles carecem pela escassez, começa o ódio. Portanto o amor faltante, o desamor, é que gera o ódio (art. 2). O ódio deixa de ter espaço pela dação de amor, pela busca do bem a todos. A adversidade generalizada provoca o ódio difuso, como também Aristóteles advertira a seu tempo (II, Rhet, 4, 31).
A desordem crônica que acontece nos espíritos em face de uma desorganização interna do meio social – dizemos nós –, em meio à qual uma grande parte da população carece dos bens indispensáveis à subsistência e ao mínimo de decência cultural é a causa das dissensões sociais. Esse ódio latente não precisa de insufladores para existir. Bastam-lhe canais mínimos, e ele espalha-se e incendeia. Todo esforço prepotente para suprimi-lo, ou as medidas paliativas (assistenciais, ou populistas), serão apenas negação de realidade no sentido da psicologia social de hoje; cuida-se do recalque, do recalcar em termos de Sigmund Freud (Verdringung Urverdrangung,nachdrängen”).
10. Os desejos.
É comum no aquinatense a invocação de passagens da Bíblia para inspiração das suas reflexões. Ao tratar do desejo (“de concupiscentia” – I, II, q., art. 1) inicia a discussão com uma frase do Livro da Sabedoria: o desejo do saber leva a um reino sem fim (Sab., VI, 21). Parece, pensamos nós, parece conter uma realidade profunda. A busca de explicações e de compreensão do mundo traça-se em linha assintótica. Nunca chegamos ao fim. E ao cabo de muito tatear, com inúmeros erros e um que outro acerto, conclui-se com proposição verdadeiramente libertadora, que afasta mitos: sabemos muito pouco de quase nada do Cosmos (esta Natureza em que vivemos, no movemos e somos) [5].
A pesquisa de Santo Tomás, o filósofo-teólogo, volta-se para o desejo indagando se ele ocorre apenas no mundo dos apetites sensitivos, ou se o há também no patamar mais elevado em que o apetite se veste das roupagens da ratio. E responde que o desejo somente existe como irracionalidade, como paixão pura (ib., sed contra). A concupiscência como tal é fenômeno próprio da simultaneidade de alma-e-corpo (Resp.). É a violência impulsionadora da sensibilidade carnal. É algo que ocorre nos porões do “compositum”, do ser humano. Não se cuida de um simples movimento em direção à coisa almejada – fato verificável também nas partes nobres do homem. O desejo é paixão especial, de forte inclinação para o deleite próprio da sensualidade. Assim compreendidos, os desejos pertencem à classe dionisíaca – diríamos – da sensibilidade irracional. O deleite dos sentidos faz-se sentir forcejando no atrair a coisa apetecida. A violenta movimentação da busca surge precisamente para que o desejo se aplaque pela presença do atraente “bem de sensualidade”, o que se realiza no prazer da união com ele. Somente em sentido amplo é que se pode chamar de desejo tanto a esperança como o amor.
Há duas dimensões no desejo. Alguns são puramente irracionais; formam comunidade entre brutos e homens. Trata-se aí de algo mecanicamente desejado – necessariamente determinado, sem interferência da deliberação intelectual. Mas há o desejo “não natural”, fruto da racionalidade deliberativa. Ao apreender algum objeto como bom e conveniente, e por isso ao optar por ele, vivemos uma experiência superior de concupiscência não natural – uma espécie de cupidez das medidas lustrosas da racionalidade, por cima da natureza (“supra naturales” – q. 29, r.). Segundo esse texto de Aristóteles e S. Tomás natural é, portanto, o que ocorre sem a atuação da potencialidade deliberativa do homem. O fenômeno praticado cum ratione é superior ao natural (ad 2). Na medida em que a razão ilumina o próprio desejo dos sentidos através da imaginação do ser particular, individual, tais desejos passam de puramente naturais ao nível de “superiormente naturais” (“non naturales” – ad 3).
Ora, essa diferença de nível é também um notável distanciamento. O desejo consciente é supranatural e, digamos, infinito. O desejo automático (carnal) fecha-se na finitude. Porque a natureza atua sempre sobre um determinado pedaço da finitude —“semper intendit in aliquid finitum et certum” (art. 4, resp.). Quando o desejo acontece cum ratione, é ilimitado, infinito, pois a razão tem competência para andar até ao infinito: “ratione autem competit in infinitum procedere” (ib.). É o caso típico do desejo possessivo de riquezas materiais. Querer ser rico é algo ilimitado: não há fronteiras para esse tipo de desejo porque o que se tem como finalidade de vida não tem limites. Quem bota o possuir como fim da sua vida é ilimitado no seu querer consciente – quer sempre mais... Diversa é a situação de quem almeja a boa vida material como meio para viver, com o suficiente para as necessidades.
11. Os prazeres.
Para Santo Tomás de Aquino o prazer (“delectatio”) é a paixão de que somos acometidos no próprio gozo da posse do bem do qual necessitávamos. Ela movimenta o espírito. Nem sempre o prazer se faz acompanhar da “alegria” como no caso de prazeres sensíveis, aliás, inalcançáveis pela alegria. Quem se deleita sob esse aspecto tem algo mais que o simples gáudio (q. 31, art. 1-3). E há também o prazer da inteligência: o prazer espiritual gerado na estrutura dos nossos centros volitivos. É este o prazer oriundo de opção feita sob os auspícios da razão. É um prazer sem comoção físico-corporal (?!), como se dá, em exemplo fornecido por Aristóteles (ver in Ethic., X, 4, 5), nos caminhos da inteligência especulativa. Aí estamos, então, em comunidade com os anjos (art. 4). E é maior esse prazer da inteligibilidade de que os corporais necessitam porque, de um lado, a razão reflete mais sobre si própria que os sentidos; de outro lado porque é o específico do homem, o que mais o define e o realiza por sobre o restante dos seres colocados com ele na natureza. E há mais: é o prazer da quietude sem as andanças próprias da matéria, é o deleitamento do que não se confrange nem se corrompe. Diversamente se dá com destino dos prazeres corporais. Reconhece-se que nem todos atingem esse nível de prazer; ao contrário, a maioria deixa-se levar pelos prazeres mais fáceis – os da sensibilidade, onde não entra a superior intervenção da ratio. (art. 5, ad 1). Se alguém se supera ascendendo aos deleites do espírito, este goza da própria potência reguladora da ordem que há de prevalecer na natureza do homem, de si mesma hábil para ser sóbria e morigerada: é a capacidade mesma de regulação e frenamento de todo o compositum (art. 5, ad 3).
Ter prazer com algo é ter-lhe a posse. No espírito é assim pelo conhecimento que gera a posse consciente; no ser só orgânico vai ser pelo tato, pelo toque, pelo contato, pela utilidade desse contato na conservação das potencialidades animais, sensíveis, imediatas pela segurança e consumo necessário à sobrevivência do indivíduo e da espécie. A força desse instinto diz bem da violência maior desse tipo de prazer: vem a ser o deleite do contato bruto pelo transe quase insofreável da sua automaticidade (“id quod est naturale in unoquoque, esto potentissimum” – art. 6, r.). Assim é em relação à nutrição e ao sexo (ibidem).
Prazeres há em que o deleite vai contra a natureza, isto é, distorcendo-a por violência desgraçadamente tornada conatural. São os momentos de corrupção: essa paixão nem aproveita ao espírito nem às autênticas necessidades do orgânico da natureza humana. Não servem à procriação nem à conservação material do indivíduo. São assim todos os desvios destrutivos daquilo que no homem não o aperfeiçoa como tal (art. 7). Pode haver contradição entre prazeres: é quando duas situações opostas propiciam prazer mas se anulam, ou seja, a quando a fruição de um impede a do outro.
Todo prazer é um movimento, algum tipo de operação. É causado pelo exercitar-se mesmo de alguma, ou algumas, virtualidades do “compositum” (do ser humano). O exercício de uma potencialidade humana, se impedido por falta de liberdade, ou por ausência de meios (em face da sua escassez ou má-distribuição), é uma negação de um prazer exigido pela natureza mesma das coisas – dizemo-lo nós. Ao ignorar esse problema de carência, falhará também o sistema jurídico porque terá deixado de servir à vida.
O mover-se da pessoa quando dá prazer assim é inclusive. Viu-o o Estagirita com acerto porque a natureza é essencialmente transmutável. A junção do sujeito a novos bens amados, de que tem necessidade, é uma movimentação geradora de prazeres sempre que esse bem esteja em medida proporcional ao amante. Sentir prazer é o mesmo que experimentar essa mudança (art. 2). Há prazer na esperança por a possibilidade do bem desejado estar presente na expectativa; gera imaginação de deleite, que é prazerosa. Ainda mesmo a tristeza por vezes pode ser fonte de prazer porque com ela está atuante a memória, quando carrega consigo a longínqua presença do bem dileto. O consolo de se afastar por algum tempo o estado de tristeza acende uma chama de alegria, que prazer é (arts. 3 e 4).
A vida em sociedade pode ser causa de prazeres. Causa-os quando nos dedicamos a outrem. O bem causado no alter é semelhança do que necessitamos, ainda que seja no passado. Também por causa da esperança de se receber benefício parecido porque em se dando, o gesto de amizade toca a imaginação do bem do dador; este se compraz de passar a outro qualquer coisa de que está a precisar. É pensamento de Aristóteles no trato da vida política (In Polit., II, 2, 6). Sempre que o móvel da ação benéfica em sociedade é a benquerença aos outros, o ator social usufrui do prazer típico da beneficência por ser o amor a fonte máxima do prazer (art. 6). Quando a semelhança se configura como modalidade de união, o fato de ser igual aos outros é outra fonte social de prazer (art .7). Ocorre tal quando a solidariedade vem a rechear a Vida com os deleites da aproximação ou da presença humana – o homem pelo homem, móvel da presença atuante no mundo político e econômico.
É própria do prazer a dilatação do espírito quando a pessoa tem a experiência dessa paixão no plano da racionalidade porque é um toque no bem, um bem necessariamente aperfeiçoador. É um prazer que engrandece, pois rompe os diques da pequenez e se abre à realidade do conveniente para os indivíduos e para a sociedade. O mundo da fantasia entra em ritmo de festa, sobe o clima de amor à Vida (q. 32, 1, ad 2).
Por vezes o prazer causa desejo do próprio prazer. Amiúde o prazer presente não é possuído por inteiro; o prazer da posse imperfeita pede prazer mais completo. Aí, buscar o prazer é prazeroso. Mormente quando se trata dos prazeres mais altos do espírito: a posse de um deles de tal modo aperfeiçoa a natureza que dele se tem fome e sede de mais e mais, tudo isto sem o enfastiamento que as coisas corporais, sensíveis, marcadas pelo sinete da finitude ocasionam pelo fato mesmo de serem. A inteligência desconhece tais limites. Por isso ela descortina sempre mais fontes de gozo no prol do espírito (q. 33, art. 2).
O prazer, se for todo só corporal, perturba o trabalho intelectual da prudência, ou seja, do intelecto voltado para a administração das coisas contingentes. Assim é, embora a atividade do raciocínio puramente especulativo continue livre para o discurso abstrato. É esta a posição de Aristóteles. O prazer traz vantagens para uma vida crescentemente opulenta. Essa paixão serve ao incremento de ordem intrínseca da existência das pessoas no seio social. O prazer que se não afasta das altas diretrizes da razão, o que permanece adequado nas circunstâncias da vida, ainda mesmo nas vibrações de seu júbilo dançante interior, é uma paixão vibrátil, já que confere veemência às ações humanas concentradas na sua capacidade de produção e de construção do bem social. Aristóteles já o acentuara com perspicácia no “In Ethic.”, X, 5, 5: o prazer corretamente dirigido pela maestria da razão unifica o ator social propiciando-lhe o máximo de rendimento (art. 4, r.). Essa verdade é tanto mais de acentuar-se quando se pensa nos prazeres culturais de produzir conhecimento e, sobretudo de participar do produto social da ciência (q. 34, art. 3).
Podemos nós dizer que há grande vantagem em o otium ser compartilhado por todo o Povo sem o Direito permitir que a atividade cultural fique encerrada no círculo apoucado das classes mais abonadas. Pela satisfação passional a vibração social de Vida pode conduzir os homens à elevação dos níveis de produtividade tanto na pesquisa como na atividade econômica. Não parece acertado à paz social nem à segurança intrínseca dos indivíduos o projeto econômico estatal pelo qual primeiro se haverá de aumentar o produto interno bruto para somente depois se pensar em equitatividade na distribuição da renda nacional. Há de imperar a simultaneidade dessas ações.
*-*
[Continua com o item 12. A paixão da dor (= tristeza)].




[1] Ver Dom Luciano MENDES DE ALMEIDA.  "A Integridade da Pessoa Humana à Luz do Ato Intelectivo Segundo Sto. Tomás de Aquino, in "Pensamento Medieval". p. 99-124.

[2] Ver CANNABRAVA Euryalo. Introdução à filosofia científica, p. 54-96.

[3] UEBERWEG, Friedrich. Grundriss der Geschichte der Philosophie (tomo II) Graz: Akademische Druck- u. Verlaganstalt (12. Auflage), 1951; páginas 4-140.
[4] GUARDINI, Romano. Der Herr (Betrachtungen über die Person und das Leben Jesus Christi). Zweite durchgesehene Auflage. Würzburg: Werkbund-Verlag, 1938.
[5] Esta frase está em livro da Bíblia católica — Atos dos Apóstolos, capítulo XVII, v. 28 —, com alusão a Deus e não à Natureza.

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