Folha de São Paulo. 21.04.2013
Marcelo
Gleiser
Deus,
Einstein e os dados
Ao escrever que Deus não joga com dados,
Einstein demonstrou incômodo com a mecânica quântica.
Talvez o leitor tenha já ouvido falar da famosa frase de Einstein em
carta ao físico Max Born, de 4 de dezembro de 1926, popularizada como
"Deus não joga dados". Que dados e que Deus eram esses?
Einstein referia-se à física quântica, que explica o comportamento dos
átomos e das partículas subatômicas, como elétrons, prótons e fótons, as
"partículas de luz".
Os "dados" aqui aludem a probabilidades, ao fato de no mundo
quântico ser impossível determinar onde um objeto vai estar. No máximo, podemos
calcular a probabilidade de ele ser encontrado aqui ou ali, com esta ou aquela
energia.
Isso era bem diferente da física anterior, na qual ao saber a posição e
velocidade de um objeto era possível, em princípio, determinar sua posição
futura com precisão limitada só pelo instrumento de medida.
Para Einstein, uma física não determinista não podia ser a última
palavra na descrição da natureza.
Outra versão, mais abrangente, deveria explicar as probabilidades e os
paradoxos do mundo quântico. Aparentemente, Einstein estava equivocado. Deus
joga dados sim.
A versão completa da frase de Einstein é um pouco diferente: "A
mecânica quântica é certamente impressionante. Mas uma voz interior me diz que
não é ainda a coisa real. A teoria diz muito, mas não nos traz mais perto dos
segredos do Velho. Eu, pelo menos, estou convencido de que Ele não joga com
dados".
O "Velho" aqui é uma figura metafórica representando não o
Deus judaico-cristão, mas o espírito da natureza, a essência da realidade.
Para Einstein, a função da ciência é desvendar essa estrutura, revelar
como funciona o mundo.
Por outro lado, ele tinha consciência de que nossas formulações
científicas eram meras aproximações do que realmente ocorre: "Vejo a
natureza como uma estrutura magnífica que podemos compreender apenas
imperfeitamente e que deveria inspirar em qualquer pessoa com capacidade de
reflexão um sentimento de humildade".
O que incomodava Einstein era a interpretação da mecânica quântica, que
diferia da sua visão de mundo. Em parte, foi ele mesmo o culpado, ao propor que
a luz podia ser interpretada como onda (como todos já sabiam em 1905) ou como
partícula. Como é que a mesma coisa poderia se manifestar de formas tão
diferentes?
A coisa piorou quando a equação descrevendo elétrons em torno de núcleos
atômicos, a "mecânica ondulatória" que Erwin Schrödinger propôs em
1926, descrevia algo imaterial. Em vez de uma onda normal, como uma de água, a
equação descreve uma "função de onda" cuja interpretação, proposta
por Born, era muito estranha: o quadrado (para os experts, valor absoluto) da
função dava a probabilidade de medirmos a partícula em determinada posição ou
com determinada energia.
Ou seja, a equação fundamental da matéria não descrevia matéria!
Nesse caso, a essência da natureza não era algo de concreto, mas uma
abstração matemática. A teoria funcionava, mas sua interpretação era um
mistério. Esse era o problema que Einstein tinha com o Deus que joga dados. E
até hoje, quando físicos começam a pensar no assunto, não conseguem evitar uma
certa ansiedade, mesmo com todo o sucesso da física quântica.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook:
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