UMA VISÃO DO MUNDO, DA VIDA, DO
PLANETA, DOS SERES
VIVOS E DO HOMEM.
(Reflexão sobre as mudanças que vem
ocorrendo no homem, na cultura, no planeta terra e no Cosmos)
Dr. Ronald Braga UNI-BH
1- Reflexões
Iniciais
Até o fim do
Renascimento ainda se fala em filosofia que "natura non dat saltus",
a natureza pode mudar, mas sem pulos, caminhando continuamente pelo espaço,
palmo a palmo, centímetro a centímetro.
Essa ideia foi
encampada por Descartes, que sistematizou as diversas disciplinas seguindo
religiosamente esse esquema, chamado o "paradigma de Descartes".
Segundo Descartes, o
princípio "penso, logo existo", era traduzido, como o corpo,
dividido em duas partes, a do "penso", sua mente que usava a
consciência, produzia pensamento; e as demais partes, braços, pernas, ...
etc que eram movimentadas pelo pensamento, como se fossem uma máquina. Os animais
não têm espírito, somente são máquinas da natureza.
No começo desse século,
sobre tudo após os escritos de física de Eínstein, Heisenberg,
Niels Bohr e outros, a visão do mundo começou a mudar: a natureza
tem seu ponto de mutação que, quando atingindo por certo grau de energia, muda
de natureza.
Assim, a água, por
exemplo, aos cem graus centígrados de calor, atinge seu ponto de mutação e muda
de natureza, transformando-se em vapor. Isso ela realiza "num salto"
superando o aforisma de Descartes de que "natura non dat saltus".
Aparecem os físicos quânticos que, como faz Heisenberg, relaciona o pensamento
da física quântica com o pensamento "por sistema". Dependendo da
quantidade de energia, a matéria pode se modificar, assumindo uma natureza
dual, conforme a luz. A luz é corpúsculo e é onda ao mesmo tempo e a energia é
massa quando atinge
a velocidade da luz. A massa é então uma forma de energia Existe, portanto, uma
mudança de forma de paradigma. Mudança de paradigma é uma nova estrutura
filosófica que, diante das novas experiências (sobre tudo dos físicos) cria uma
nova visão de mundo.
As novas referências trazidas iluminam diferentemente
a realidade. Criam-se novas maneiras de obter o saber, de firmar o conhecimento
a tecnologia das máquinas para ver o mundo microscópico assim como para ver as
grandes estrelas, permite novos pontos para firmar o conhecimento; iniciar a
cultura e igualmente alarga na natureza, a visão de cultura: inovar os limites
da intuição.
"Há duas formas de viver a vida: uma
é acreditar que não existe milagre. A outra é acreditar que todas as coisas são
um milagre" (Albert Einstein)
"Tristes tempos os nossos, é mais
fácil desintegrar um átomo que um preconceito" (Albert Einstein)
“O ser humano vivência a si mesmo, seus
pensamentos como algo separado do resto do universo que o cerca - uma espécie
de ilusão de ótica de sua consciência, moldado pela cultura. E essa ilusão é um tipo
de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por
pessoas mais próximas.
Nossa principal tarefa é a de
nos livrarmos dessa prisão, ampliando nosso círculo de paixão, para que ele
abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Poderá ser que
ninguém consiga atingir plenamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização
já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança
interior" (Albert Einstein).
Essa natureza dual muda
os conceitos de espaço e tempo (que eram referências fixas da filosofia
cartesiana), nesse ponto a busca de explicações para o cosmos, e a natureza, os
físicos se voltam também para a filosofia oriental (O Tao da Física) e,
impressionados percebem que o mundo já não é visualizado como uma coleção de
objetos inanimados que interagem de maneira mecanicista, baseada em leis
matemáticas. Existe uma descontinuidade entre mente e matéria, subjetivo e
objetivo, entre ciência e religião. Não existe na visão oriental uma religião
que reivindica o domínio do mundo mental e uma ciência, que reivindica o
domínio do mundo físico. Eis, na sua essência, o que constitui o ponto de
mutação. A cultura parece querer superar esses desequilíbrios trazidos pelos
novos conceitos da ciência, representadas, sobretudo pela física. Nossa cultura
tem favorecido os valores e atitudes Yang ou masculinos e negligenciados os
valores femininos. Temos favorecido a auto-afirmação em vez da integração,
análise, em vez da síntese, conhecimento racional em vez da sabedoria
intuitiva, ciência em vez da religião, competição em vez da cooperação, a
expansão em vez da conservação.
Hoje a compreensão
crescente da ecologia, com o misticismo, a progressiva conscientização
feminina, a redescoberta do acesso holístico à saúde e a cura: tudo isso pode
ir pouco a pouco contrabalanceando a ênfase excessiva dos valores a atitudes
masculinas e racionais, o equilíbrio entre o masculino e o feminino, tudo levando
a uma nova visão com novas concepções, pensamentos e valores.
Estamos nos aproximando
dos conceitos de ponto-de-mutação, que o físico Werner Heinseberg queria
introduzir na física. Uma física que inclui valores e moral. Isso é feito por
uma abordagem por sistemas. Há um difícil equilíbrio entre nascimento e morte,
vida e evolução da consciência e da mente.
Diz Werner
Heinseberg:
"A grande
contribuição científica que, em termos de física teórica, nos chegou do Japão
desde a ultima guerra, pode ser um "- indício de uma certa relação entre ideias
filosóficas presentes na tradição do extremo Oriente e a substância filosófica
da teoria quântica. "O difícil equilíbrio entre nascimento e morte; vida e
evolução da consciência e da mente nos traz a lembrança da renovação de muitos
seres das diversas espécies da natureza que no mínimo é curioso, e pouco ainda
se escreveu sobre a matéria."
A
Piracema, um curioso modo de renovação da vida.
Vou tentar reproduzir
nesta parte do artigo, fenômeno muito parecido com o que conhecemos no Brasil
com o nome de "Piracema".
A renovação das
espécies, realizada sob essa denominação dá-se, sobretudo com os peixes, mas
podemos percorrer esse fenômeno desde os micro-organismos até os seres maiores
que conhecemos, como as galáxias, que acontecem nos confins do universo, e
somente podemos tomar conhecimento destes fenômenos através de telescópios
astronautas.
Eu vou começar, citando
uma espécie de piracema que se dá com o ser humano, dentro da mesma lógica.
Essa evolução começa na
geração do próprio ser humano. Ouvi dizer de um teólogo jesuíta famoso que Deus
não era um assassino que matava três milhões de espermatozoides vivos e
íntegros para somente aproveitar um na fecundação do óvulo feminino, que vai
gerar um ser humano. Disse o teólogo que esse é um modo de agir da natureza ,
do qual ainda conhecemos muito pouco. O fenômeno da "piracema"
evidentemente vai mais longe e não atinge só uma pessoa, como extensas partes
do continente.
Conheço pessoalmente o
fenômeno piracema do Rio Araguaia. Num determinado momento uma espécie de raio
toca, ao mesmo tempo, centenas de peixes, que começam a subir o rio na direção
da nascente.
O volume vai aumentando
e a medida em que os peixes percorrem o rio, o imenso Rio Araguaia, vai se
tornando pequeno para tanto peixe, o barulho vai se tornando ensurdecedor, os
peixes pulam os obstáculos, alguns saem e voltam ao rio, superam barreiras,
quedas d' água, morrem em grande quantidade e somente um percentual consegue
chegar a origem do rio, lá procura o macho, começa, a desova, e cumprida a
missão, desce rio abaixo, morrendo, acabando-se, mas seguro de que os óvulos
brevemente vão se tomar alevinos e irão voltar ao rio e normalizar a rotina das
águas.
Já vimos varias vezes
na televisão o fenômeno das tartarugas chegando para desovar centenas de
milhares de ovos e depois, voltam ao mar. Anos após, os filhos das primeiras
chegam exatamente ao mesmo lugar, cumprem o mesmo ritual, desovam do mesmo
jeito, e as minorias que se salvam, desaparecem no mar, até o próximo ciclo.
Mas o fenômeno da
piracema mais interessante seja talvez o dos mares do sul, que afeta os rios da
índia e os que pelo, mar mediterrâneo sobem os rios da França e outros países
da Europa. O peixe principal ator desse movimento é a enguia, que Claude La
Motte publicou no jornal "Lê Monde", no dia primeiro de abril de
1971, e impressionou tanto o argentino Júlio Cortazar, que intuiu a
profundidade do fenômeno e escreveu um livro "Prosa Del' observatório",
onde num desejo cósmico, abraça tudo que lhe aparece a frente: o curso das
enguias, a natureza da via Lactea , que vai desembocar no berçário das
estrelas, morrendo muitas e nascendo outras. Situado no observatório do Sultão
Jai Sing (Jaipur, Delhi), ele vê enguias, estrelas, homens do planeta
envolvidos como partes de uma mesma teia, um sistema espetacular, complexo,
uno, indissolúvel.
"Desde logo, inevitável
metáfora, enguia ou estrela, cabide da imagem, desde logo ficção, ergo tranquilidade
nas bibliotecas e poltronas: como quiseres, não há outra maneira aqui de ser um
sultão de Jaipur, um bando de peixes, um homem que levanta o rosto para o
aberto da noite ruiva o pescador que extrai a rede estremecida de dentes e de
raiva, uma enguia é uma estrela que é uma enguia.
"Talvez os governantes da
guarda avançada pela qual damos tudo o que somos e temos... talvez os chefes e
os homens da ciência acabem saindo ao aberto, tendo acesso a imagem onde tudo
está esperando, neste mesmo instante as jovens enguias chegam na bocas dos rios
europeus, vão começar o assalto fluvial; talvez já seja noite em Delhi e em
Jaipur e as estrelas biquem as rampas do sonho de Jaí Sing; os ciclos se
fundem, se correspondem, vertiginosamente basta entrar na noite ruiva, aspirar
profundamente um ar que é fonte e caricia de vida; será preciso seguir lutando
pelo imediato, ... mas o aberto continua ai, pulsação de astros e enguias,
"anel de Moebius" de uma figura do mundo onde a conciliação é
possível, onde o verso e reverso deixarão de se desgarrar, onde o homem poderá
ocupar o seu posto nessa jubilosa dança que alguma vez chamaremos
realidade" (Cortazar,
Júlio, Prosa do Observatório, 113).
Eu
não sou físico nem sei falar de física quântica, porque essa não é a minha
praia, nem esse é meu papel.
Mas sei que estou
profundamente impressionado com as lições que venho recebendo de alguns
físicos, lidos e vistos nos filme de Fritjof Capra sobre o ponto de mutação,
nos livros e nas conferências de Rubem Alves sobre o grão de areia e o
universo, sobre sua conferencia sobre o conhecimento e o (dês) conhecimento,
sobre as reflexões de Leonardo Boff e das conversas que venho mantendo com
filósofos, cientistas e homens como Edgar Morin, Maturana, Roland Barthes e
outros.
A física como ciência
vinha estudando a matéria, até dissecá-la em sua ultima partícula, o átomo, e
descobrir e conhecer seu funcionamento. Mas eles se espantaram: a matéria não
era um núcleo duro, sólido, intransponível. Era um sistema como o sistema
solar, da qual a terra faz parte. Tinha o núcleo e tinha a circulação de
satélites ao seu redor. Tinha prótons e elétrons girando em elipses ou
circunferências, a eles ligados. Mas o espantoso não é essa composição da
matéria. É o vazio que está na relação do núcleo com seus satélites. E a
perspectiva nova, a distancia incomensurável que existe entre elas, o que
supera nossa capacidade de percepção.
Temos o exemplo que da Franz Capra: se pegarmos uma laranja e formos
analisar seu núcleo e os corpúsculos que girarão ao seu redor, teríamos que
ampliar a laranja ate o tamanho da terra, para que seu sistema de relações se
tomasse visível.
Isso pode parecer mais
poesia que realidade, mas a dura realidade de outros exemplos me convenceu do
contrario; viu ele em Hiroshima, sobre um monte de grama, um estranho
monumento: Uma bola negra, no tamanho de uma bola de tênis. E ali estavam as
cinzas de 100 mil mortos da bomba atômica de Hiroshima. Uma luz intensa, um
clarão, uma explosão, e eis que 100 mil pessoas se transformaram numa bola de
tênis de cinzas.
Aprendemos em ciências
separar criteriosamente as coisas, a fragmentá-las, a reduzi-las, e realmente
novos conhecimentos foram possíveis, o progresso de certas áreas espantoso. Mas
esquecemos de voltar depois a juntar as partes e ficamos isolados, separados,
solitários, tentando salvar nossas pequenas vidas burguesas, e já não
percebemos que fazemos parte de uma comunidade maior, de um sistema de seres
vivos que inclui, animais, arvores, fauna e flora, que somos parte da terra, do
planeta, de suas águas e de suas areias.
A física nos ensinou também que toda matéria pode se transformar em
energia e vice-versa: a energia se concretiza em matéria. Essa e' a forma já
conhecida da teoria da relatividade de Einstein. Mas continuamos achando que
energia, força psíquica e sentimentos são para a literatura e a poesia. O nosso
cérebro é assim: tem neurônios e tem sinapses, que é o espaço entre os neurônios.
Mas a conectividade, a ligação, a força vem dessas sinapses que conduzem a
energia as diversas partes do corpo.
Rubem
Alves Imagina um tabuleiro de xadrez, com todas as suas peças. De um lado está
um estudante que sabe movimentá-las. Do outro está um campeão do mundo. O
primeiro vê as peças e o vazio no qual dar-se á primeira jogada.
Já o
segundo, campeão de xadrez, viaja no espaço imenso daquele campo cheio de possibilidades,
vê e mede todas as alternativas, a estratégia e a tática num encadeamento
neurológico pouco conhecido, fora do real, jogadas gratuitas que levam a morte,
mesmo obedecendo às regras dos vivos.
Viaja no
espaço vazio e faz dançar as peças, como na vida; diante dele está não um
tabuleiro, mas um mundo. Por isso ele é um campeão.
E agora
teremos que nos esforçar para ver, para ter essa nova cosmovisão de vida física,
cósmica, terrestre, humana e profundamente complexa. A diversidade humana é uma
riqueza, a diversidade biológica a nossa condição de existência, mas, por acima
de tudo isso, sobretudo isso, esta a nossa unidade indissolúvel, a nossa
unidade com a língua e a cultura humanas, a humanidade toda e um todo e cada
pessoa que se perde atinge a humanidade como um todo. Somos diversos, mas temos
uma identidade terrestre e planetária e se não modificarmos nossa consciência,
compreendamos essa unidade, nossa visão do mundo é uma caricatura da realidade.
Desenvolvemos a ciência, mas esquecemos a ética.
A ética não
é religião. Ética é o cimento que une todos os homens numa mesma humanidade.
Esse e o nosso destino planetário, cimentado com ética, vale dizer, com muita
coisa mais que a simples inteligência ou simples conhecimento racional.
E preciso mais
que conhecer, e preciso compreender.
Qual a
diferença? Você conhece seu vizinho, mas somente sua mãe o compreende. Porque
ela não vê você só com a inteligência, com a razão: ela vê você com os sentimentos,
com a carne, com o leite e com seus seios, ela vê você como parte que saiu de
dentro dela, ela vê você em todos os sentidos e direções, ela cerca você de
todos os tipos de saber. Por isso ela compreende você.
Essa visão
compreensiva deve ser estendida a comunidade, aos povos, a humanidade. Porque a
paz e a nossa sobrevivência dependem dessa nova consciência: somos unidos na
ciência, mas também na cultura, na língua, na terra, integramos a única rede da
vida e a ela devemos estar pregados como aranha em sua teia.
Energia
vira matéria; matéria vira energia. O universo tem massa mesmo no vácuo,
preenchido por neutrinos, mínima partícula que pode atravessar quilômetros de
chumbo sem ser notado (ver teoria das cordas).
Eu estou
apenas balbuciando algumas coisas que inicia essa nova visão. Convido vocês a
participarem do diálogo como os grandes sábios, filósofos, cientistas e com os
homens de boa vontade que estão tentando reconstruir o planeta ameaçado. E,
ajudado por essa nova visão de mundo, poderemos atingir a nova realidade do
planeta, a única que vai valer a pena para nós e nossos filhos.
Bibliografia
•
O Tao da Física, de Frittjof Capra.
•
O ponto de mutação, de Frittjof Capra.
•
O livro "Corpo sem idade" “Mente sem
fronteiras" de Deepack Chopra,
•
"Quem somos nós?" William Arnz, Betsy
Cliose e Mark Vicent, autores do livro e do filme "Quem somos nós?"
•
"A obra do artista" de Frei Betto
•
"As Profecias Celestinas", inspirado
no Best-Seller de James Redfield.
•
"A Escola de Ponte", de Rubem Alves
•
Encontro com Milton Santos; o mundo global visto
do lado de lá "Prosa Del Observatório" de Júlio Cortazar, ED. Lineu,
Barcelona, 1974.
Reflexões finais (Tiradas de um diálogo com Leonardo Boff)
Essa nova visão é holística:
ela foi inaugurada pelos astronautas a partir dos anos 60 quando se lançaram os
primeiros foguetes tripulados. Os astronautas veem a terra de fora e de frente.
De lá, de sua nave espacial da lua, a terra aparece como planeta azul-branco
que cabe na palma da mão e que pode ser escondido de trás do polegar humano.
Daquela distância,
borram-se as diferenças entre ricos e pobres, ocidentais e orientais,
neoliberais e socialistas. Todos são igualmente humanos. Mais ainda, daquela
perspectiva, a terra e os seres humanos emergem como uma única entidade. O ser
humano e a própria terra, enquanto sente, pensa, ama, chora, venera, caminha; A
terra emerge assim, como o 3o planeta de um sol que é apenas um
entre 100 bilhões de outros em nossa galáxia;....
Essa nova cosmologia,
vinda da astrofísica, da física quântica, da nova biologia, nos advertem que o
universo inteiro está em cosmogenese, crescendo em complexidade, diferenciação,
auto-organização e consciência, ligando tudo com tudo.
O universo é assim, uma
totalidade orgânica, dinâmica, diversa, tensa e harmônica: cosmos e não caos.
É preciso, por exemplo,
distinguir hoje dois tipos de economia (Kennet Boulding): a economia
capitalista do Faroeste , do cowboy, que se baseia na " abundancia
aparentemente ilimitada de recursos e espaços livres para invadir e se
estabelecer. É o antropocentrismo exagerado que leva o planeta a destruição.
A outra economia, para
a qual devemos caminhar, chama- se economia da nave espacial terra. Nessa nave,
como em qualquer avião, a sobrevivência dos passageiros depende do equilíbrio
entre a capacidade de carga do aparelho e as necessidades dos passageiros.
Disso resulta que o ser humano deve acostumar-se ã solidariedade, como virtude
fundamental, encontrar o seu lugar no sistema ecológico equilibrando, no
sentido de poder produzir e reproduzir a vida própria e dos demais seres vivos
e ajudar a prever o seu equilíbrio natural.
A terra é portanto, um sistema limitado, equilibrado e não
permite qualquer tipo de aventura antiecológica.
Essa ecologia social antecipada por Theillard di.Chardin é
divulgada hoje pela astrologia social de Edgar Morin e da Enciclopédia
Francesa. Ele sempre analisa o ser humano interagindo com o ambiente, os dois
juntos, inseparáveis, cada sistema humano cria seu ambiente adequado e do
ambiente tira sua caracterização.
Os
movimentos ecológicos constatam que os tipos de sociedade e de desenvolvimento
existentes não conseguem induzir riqueza sem simultaneamente induzir degradação
ambiental. O que o nosso sistema industrial induz em demasia: lixos, rejeitos
tóxicos, escorias radioativas, contaminação atmosférica, chuvas acidas,
diminuição da camada de ozônio, envenenamento da terra, das águas e do ar; numa
palavra, deteriorização da qualidade de vida.
A fome da população,
as doenças, a falta de habitação de educação e de lazer, a ruptura dos laços
familiares e sociais são agressores ecológicos contra o ser humano, o mais
complexo criação, especialmente o mais indefeso, que são os pobres e os
excluídos.
"O grande desafio
ecológico da humanidade vem da pobreza e da miséria dos homens, e não do mico
leão, do urso panda da China ou das baleias. Não foi implantado ainda a cultura
da cidadania, da democracia, da participação, da solidariedade e da
libertação". (Leonardo Boff).
Dentre todas
as criaturas da terra, só os seres humanos podem mudar os seus padrões. Só o
homem é o arquiteto do seu destino. Os seres humanos, ao mudarem as atitudes
internas de suas mentes, podem mudar os aspectos externos de suas vidas.
Conclusão: A dança de Shiva
Há cinco anos experimentei algo de muito belo, que me levou a
percorrer o caminho que resultou nesse livro.
Eu estava sentado na praia, ao cair de uma tarde de verão, e observar
o movimento das ondas, sentindo ao mesmo tempo o ritmo da minha própria
respiração. Neste momento, subitamente, apercebi-me intensamente do ambiente
que me cercava: este se me afigurava como
se participasse de uma gigantesca dança cósmica. Como físico, eu sabia que a
areia, as rochas, a agua e o ara meu redor eram feitos de moléculas e átomos em
vibrações e que tais moléculas e átomos, por seu termo consistem em particular
que interagiam entre si através da criação e da destruição de outras
partículas. Sabia, igualmente, que a atmosfera da terra era permanentemente
bombardeada por chuvas de “raios cósmicos”, partículas de alta energia e que
sofriam múltiplas colisões a medida que penetravam na atmosfera. Tudo isso me
era familiar em razão da minha pesquisa, eu físico de alta energia: até aquele
momento porem, tudo isso me chagara apenas através de gráficos, diagramas e
teorias matemáticas.
Sentado na praia senti que minhas experiências anteriores adquiriam
vida. Assim, “vi” cascatas de energia cósmica, provenientes do espaço exterior,
cascatas nas quais em pulsações rítmicas, partículas eram criadas e destruídas.
“Vi” os átomos dos elementos – bem como aqueles pertencentes ao meu próprio
corpo participarem desta dança cósmica de energia. Senti seu ritmo e “ouvi” o
seu som. Nesse momento compreendi que se tratava da dança de Shiva, o Deus dos
dançarinos, adorado pelos hindus. (Frittjof Capra)
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